quinta-feira, 16 de julho de 2009

" Se eu me chamasse Raimundo"

Há alguns dias um certo acontecimento desencadeou uma série de pensamentos filosóficos curiosos. Bom, nada mais adequado do que compartilha-los num blog de filosofia
Não é nada de mais, mas espero que gostem e ignorem os erros , loucuras e o tamanho excessivo
Tudo começou num belo domingo de simulado de português. Digamos que ,no mínimo, gramática não é lá a matéria mais interessante de todas e por isso estava com uma certa preguiça. Ah, pra falar a verdade, não tinha a minima vontade de fazer aquela prova ( acho que todo mundo já passou por isso)
Então que veio a parte mais emocionante. Pode parecer meio maluco, admito, mas até que foi uma idéia boa. É, vendo agora é meio bobo mesmo. Vocês verão que ,apesar de tudo, funcionou e ,não fosse esse o caso, não teria parado para pensar
Antes disso é preciso contextualizar melhor. Nos dias anteriores eu estava relembrando alguns clássicos da minha infância: jogos de computador mesmo que tinham uma história interessante. Se não me engano foi o Starcraft, mas não faz muita diferença
Enfim, munido de um enredo e necessitando um incentivo para fazer o simulado eu tive esta idéia. Por que não deixar as coisas mais emocionantes? Fazer essa prova é muito chato! Não, eu não estou fazendo o simulado. Na verdade, essa prova é o exame de admissão para a tripulação do Gantrithor ( um nave que eu gosto muito nesse jogo)". Em outras palavras, eu tentei me colocar num contexto diferente
E não é que funcionou? Fiquei mais disposto a fazer o que tinha que fazer, afinal agora tinha um sentido bem maior, fictício, mas maior. Eu poderia ter imaginado qualquer coisa : que era para a tripulação do Pérola Negra ( bem mais conhecido, imagino) ou que tinha algo a ver com Harry Potter, ou Senhor dos Anéis ou até mesmo o Barney
o Fato é que eu, obviamente, sabia que aquilo não era verdade ( ainda não estou louco). E isso não faz diferença! Poderia ser uma besteira gigantesca que, se incentivasse a concentração na prova, já teria servido perfeitamente, até melhor que a realidade

Passado o evento, é possível tirar umas conclusões interessantes. Primeiramente, acho que se adequa muito bem àquela idéia de Jean Baudrillard de diversas realidades coexistindo, ou seja, ao mesmo tempo em que há o estudante do poliedro fazendo uma prova, há um herói imaginário em busca de um objetivo maior
Aliás, a própria idéia de "simulado" já é algo paralelo à realidade, porque você está no poliedro fazendo um prova, mas na verdade você está fazendo o vestibular, ou pelo menos deve agir como se estivesse. Bom, aqueles que leram o "Simulacro e simulações" , por favor, corrijam e adicionem mais idéias
Retomando o passado, podemos citar a mitologia. Me permitam a ousadia mas Zeus, Hermes, Apolo, etc não existem. Pelo menos não fisicamente, como retratado pelas histórias ( tenho de tomar cuidado para não começar aquela boa e velha discussão sobre o que existe ou não). Entretanto, isso não impediu os que acreditavam nos mitos de achar uma explicação para os fênomenos naturais. Pode não ser, para alguns, tão bom quanto um pensamento racional e científico, mas conseguiu cumprir um objetivo
Vamos deixar a discussão mais emocionante: analisemos as religiões de hoje. Pode ser que o Budismo, o Cristianismo, o Islamismo, ou qualquer outra fé esteja incorreta, no sentido de seus discursos não condizerem com a realidade. Como também podem estar corretas, no caso da existência do céu e do inferno, por exemplo. De forma analoga, elas ,independentemente da verdade, conseguem ensinar valores morais, éticos e até gerar bem-estar psicológico
Não é preciso ir muito longe para ver outros exemplos dessas 'mitologias" que nos cercam. A idéia de alma gêmea, por exemplo. Existe alguma fundamentação científica, teórica ou racional para ela? Creio que não, pois na verdade ela é fruto de um desejo e não de um pensamento. Afinal, acreditar que existe uma pessoa perfeita para cada um é uma idéia agradável de ter, mesmo que possa ser algo que nunca venha a acontecer( sem querer inferir que é uma idéia repudiável). Aliás, fico imaginando se em sociedades poligâmicas existe essa idéia, ou se há um conjunto de almas gêmeas
Criamos esse tipo ilusão à todo instante.Ilusão não no sentido pejorativo, mas por ser uma idéia pouco fundamentada em fatos concretos e racionais e mais em desejos , percepções e necessidades. De forma mais genérica, ao pegar algo imaginário, virtual ou emocional e atribuir valores concretos
Por exemplo, todo as formas de escapismos e fingimentos na literatura, fábulas, filmes ( ah, quem não chorou quando viu Rei Leão? Mesmo que se trata de uma animação), fronteiras, teatro, promessas,nomes ,alguns jogos, plano inclinado sem atrito ( como diria o prof. Daniel) ,nações , valores éticos e morais e muitos outros tantos. Três deles, entretanto, é conveniente falar mais detalhadamente
Primeiramente, as noções de ética, direitos humanos e afins já seriam idéias artificiais. Como disse David Hume, a ética é a lei sem a razão. Ou então, "direitos inalienáveis": não há nenhuma lei física ou lógica que governe a necessidade de tais valores, pelo contrário, eles foram convencionados como irrevogáveis por serem favoráveis à existência pacífica das pessoas e serem um desejo comum a quase todos indivíduos e , por isso, é algo que quase todos concordam ( sem querer sugerir que são errados).
Outro caso interessante é a idéia de hierarquia. A existência de um líder e vários outros cargos com diferentes priporidades é igualmente artificial, já que não há uma característica natural, inerente ou logicamente necessária que possa garantir de imediato essa divisão. Claro que há um propósito bem definido, meios para garantir a hierarquia e critérios de escolha, mas em termos de valor concreto se equipara a um grupo de crianças decidindo quem esconde e quem procura
E o meu caso preferido, a poliONU e outras simulações. É incrível como alguns delegados ficam tão imersos em outra realidade que mesmo sabendo que são alunos numa simulação ainda discutem como se realmente fossem representantes de seus respectivos países. Alguns choram, outros ficam bravos, outros, ao contrário, simplesmente não entendem o que fazem alí no momento. Bom, quem já esteve numa acho conhece bem
Pensando assim, a verdade e a realidade seriam meramente limitações físicas. Ou seja, contanto que não seja algo totalmente absurdo e que ,por isso, não possa ser confundido com o que captamos pelos sentidos, será efetivamente tão valido quanto algo que se atenha perfeitamente aos fatos concretos
Em outras palavras, um indivíduo poderia interpretar o mundo de uma forma completamente diferente da dos outros só que para ele seria a verdade. Uma boa ilustração disso está no "Adeus, Lênin" quando a mãe do protagonista acordo do coma e o filho começa a mascarar toda a realidade. Por exemplo, ele coloca produtos novos em embalagens da recém extinta URSS, inventa uma história de que a coca-cola é na verdade russa e outras ações, que fazem com que a mãe acredite numa realidade completamente diferente. E até que não é tão estranho, porque os fatos , do jeito que foram apresentados, eram coerentes
Talvez isso ocorra também em nossa sociedade de uma maneira sutil. Não somente pela mídia, mas em todos os conceitos que possuímos: a idéia de existência, individualidade, dimensionalidade, tempo, causalidade ( como diria David Hume) , consciência, etc. Idéias estas que são tão cotidianas que temos dificuldade de nos imaginar sem elas. Em palavras mais familiares, estariámos cegos?
Aliás, é algo curioso. Li em algum lugar que os bebês costumam chorar quando vêem outros chorando porque acabam achando que tem algo de errado com eles também, ou seja, não têm uma noção clara de individualidade. Ou também como outro filósofo, não lembro qual, disse que a noção de profundidade é gerada pelo tato nos primeiros meses de vida.
Nâo que seja precisa sair correndo e dizer "A vida é aritifical !", "Nós vivemos uma ilusão" e coisas do gênero. Até porque, independentemente de estarmos corretos ou enganados, em termos efetivos, a realidade, se é que esta palavra tem algum sentido, continuaria sendo a mesma. Acho conveniente citar uma frase que vi nos Simpsons: " o mundo real é para aqueles que não tem criatividade para criar algo melhor"
Bom, fica em aberto para cada um pensar o que quiser, o quão estranhos podem parecer alguns de nosso conceitos, o que mais se pode concluir de uma existência subjetiva, ou que eu estou viajando completamente ( nunca se sabe)
Espero que tenham gostado, apesar dos quase inveitáveis erros de português, incoerências, viagems, etc
Tomara que a filosofia também tenha gostado
Fiquem à vontade para comentar o que quiserem ( ou não).
Um grande abraço a todos ! Especialmente à LJCC,
Guilherme, cavas, gezuiz, profeta, nº6 ou oq for mais conveniente
ah ! e o trecho do poema de Carlos de Drumond que supriu a falta de criatividade para um título:
"Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução. "

6 comentários:

Natália Torres disse...

Sabia que algumas vezes eu tbm gostou de fingir que estou num mundo imaginario (gosto bastante de Harry Potter hauhauhauha)para que as certas coisas pareçam mais interessantes do que realmente são.
Eu não acho que algum dos mundos(o real e o imaginario)seja falso. Eu acho que pode existir uma realidade nas nossas imaginações, mesmo que nós não as percebemos. Agora vc me diz, como eu acho isso? De novo, o rigor da filosofia me pega. Eu continuo no achismo. :s
Me deem uma chance, vai!

Juh disse...

Primeiro queria dizer que o post já me ajudou, ao menos, por me dar a ideia de imaginar durante provas do poliedro. É uma saída divertida para algo tão cansativo. Não creio que minha mente seja capaz, porém tentarei.
Enfim, várias realidades coexistindo é uma ideia que me assusta, não posso negar, pelo fato de que podemos confundí-la com loucura, mas não parece de todo maluca, eu a acho bem plausível, considerando também os argumentos do texto.
Imaginar, quanto à religião, é algo imprescindível e comum. Todas o fazem. Mas até onde é imaginação, é impossível dizer. Só basta crer, para os que querem.
Agora, quanto à alma gêmea, concordo contigo! Acho que quem cria condições para um relacionamento saudável é o casal, e o parceiro só será sua alma gêmea até onde você deixar, amor são apenas reações químicas.
Criação, acho que por isso que esses conceitos são tão bem aceitos. Vocês podem achar um tanto quanto 'psicóloga demais', mas estava lendo um livro ("Tudo começa em casa", perdoem-me por não me recordar o nome do autor) sobre isso mesmo, em que contestavam cada fase da vida.
Dizendo que a maioria dos conceitos são aceitos muito antes do que propriamente entendidos.
E mesmo que a realidade, continue a mesma, ao menos a alienação é contornada, que para mim, já é um grande avanço.
E Gezuiz, sinta-se sempre à vontade quanto à escrever, aliás outros também deveriam se sentir (inclusive eu).

Romulo V. Braga, HQ disse...

Porra, esse assunto é tão legal que eu queria reunir a Sociedade Whatever contra Alguma Coisa para discutir.

Juh disse...

eu concordo com o Romulo, e acho que ele devia marcar algo para essa semana (já que nós estamos de férias ainda).

Unknown disse...

Primeiro, eu pergunto: foi bem no simulado? haha
Se foi, irei praticar sua tática em determinadas provas e, até mesmo simulados.

Agora ao que mais interessa...
Real e imaginário, termos aparentemente contrários, mas extremamente semelhantes.
Contrários por mero costume de ver que a imaginação não é real. E isso acontece porque o que imaginamos é o que "inventamos" em nossa cabeça. Portanto, não existe por não vermos, não pegarmos, não ouvirmos, comermos ou cherarmos. Daí, me lembro daquela aula em que discutimos a existência de Deus através de Descartes em "Penso, logo existo". E através deste cara, eu diria que as imaginações são reais. Aqui, imaginação e realidade tornam-se extremamente semelhantes. E então, lembro do Guilherme citando o filme "Adeus, Lênin", onde o rapaz cria na cabeça de sua mãe um mundo diferente do que se via nas ruas, mas que foi a realidade para ela.
Assim, num mundo cheio de incertezas, sempre é preciso crer em alguma idéia (seja na igreja, na escola, nos relacionamentos, etc) que sirva de parâmetro para fazer escolhas, viver. E essa idéia é fruto de imaginações (como "quais serão as consequências de determinada atitude?"), levando a uma determinação (Não é assim que acontece nas igrejas? Elas determinam o certo, errado.). Essa determinação feita seria a realidade do indivíduo, mas nada impede que ela mude, conforme ele aprende com a vida e percebe que estava errado (sua realidade não existia). E como diz na frase dos Simpsons: "o mundo real é para aqueles que não tem criatividade para criar algo melhor", a realidade pura existe onde não há mudança. Mas sempre há mudança.

Adorei o tema.

Romulo V. Braga, HQ disse...

P******!
Esse post é fenomenal relmente.
Tem tudo a ver com que eu estou estudando.
Vou dar uma de chato e apenas reclamar: se eu tivesse tempo, comentaria e postaria sobre isso.

Filósofos! Acreditem que vou voltar a escrever aqui!
Tomem conta do blg por todo nós!